Jornalistas de meu mundão, que fazer num mundo onde 358 bilionários detêm mais da metade de toda a riqueza da população do planeta? Um mundo em que um país, Moçambique, onde a quarta parte das crianças morre de doenças infecciosas antes de atingir a idade de cinco anos, gasta duas vezes mais com o pagamento da dívida externa do que com saúde e educação?
Um mundo onde, segundo o gerente do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, "se a tendência atual se mantiver, as disparidades econômicas entre países industrializados e países em vias de desenvolvimento passarão do estágio injusto ao desumano"? Um mundo em que, no próprio âmago dos países democráticos, o dinheiro domina o sistema político a ponto de ambos se confundirem, as leis são feitas por quem assina os cheques e os cidadãos sentem tal nojo que acham melhor deixar o direito de votar apenas para os investidores?
Jornalistas e intelectuais, como podemos denunciar esta situação e propor soluções quando esses bilionários, os Bill Gates, os Marinho, os Frias, os Sirotski, ou os Civita da vida, possuem os jornais e as editoras para quem escrevemos, as emissoras de rádio em que falamos, as redes de televisão onde aparecemos?
O que fazer quando a informação e a cultura disseminadas nas nações em vias de desenvolvimento provêm basicamente dos países industrializados, e quando tão pouco da informação e cultura difundida nos países industrializados provém das nações em vias de desenvolvimento?
O que fazer quando os que assinam os cheques, os que redigem as leis, os que investem, os que reestruturam, os que demitem, são também os nossos patrões, os nossos anunciantes, os nossos distribuidores, os nossos interlocutores, são, enfim, quem decide?
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