viernes, 2 de octubre de 2009

Televisão vs. religião

religiaonatv[3]

As religiões estão cada vez  mais presentes na programação da televisão brasileira. Claro que essa presença não é exclusividade do Brasil. Manifestações religiosas são frequentes na programação das TVs estrangeiras, entretanto, nesses casos, a presença se dá prioritariamente em canais fechados.

Ao analisar o assunto devemos levar em consideração dois importantes fatores:

Primeiro: No Brasil, a radiodifusão é regulada pelo Estado. Parte-se do princípio de que o espectro das ondas é finito, permitindo a existência de poucos concessionários e, portanto, cabe à União estabelecer quem pode usufruí-lo. É um bem público que é concedido ao capital privado – Rede Globo, SBT, Record etc.

Segundo: O Brasil é um Estado Laico, separado de qualquer religião. “A separação da Igreja do Estado é uma conquista irreversível da democracia. As razões religiosas podem orientar decisões privadas das pessoas, mas nunca definir critérios para a cidadania em sociedades democráticas e republicanas” ¹.

Nesse mês, a imbecilidade diversidade religiosa terá mais (?!) espaço na programação televisiva com a estreia do programa “Sagrado”. “Uma coprodução da Rede Globo com o Canal Futura, a série vai discutir um tema atual por semana, mostrando a visão e o entendimento de cada religião a respeito de assuntos muitas vezes polêmicos como: violência urbana, liberdade de expressão, sexualidade, novas famílias, entre outros” ².

Dito isso, não seria, no mínimo, incoerente usufruir de um bem público - as concessões de radiodifusão - para a veiculação de manifestações religiosas - essencialmente privadas?  Tais programações invadem as residências de milhares de telespectadores diariamente. Ok, podemos mudar de canal, mas elas continuarão lá.

A favor da programação religiosa está o fato de a religião ser, também, uma manifestação cultural e, por isso, merecer ampla divulgação na mídia. Mas até que ponto esse programa da Rede Globo não vai contribuir para tornar mais ignorantes os brasileiros? Trazer à luz temas importantes para serem sacralizados discutidos por representantes de diversas religiões impedem uma atitude crítica e reflexiva. É ignorar que os homens são criadores da sociedade, da política, da cultura e agentes da história. Além de não representar verdadeiramente a democracia, afinal,  aqueles que não têm religião não estão representados no programa, – quase 12,5 milhões de brasileiros, segundo o Censo 2000.

Interpretar uma sociedade apenas aos olhos das religiões é aceitar dogmas, é acreditar que as coisas são como são porque sim, ou porque deus quis assim. É ser alienado. É aceitar passivamente tudo o que existe, por ser tido como natural ou de origem divina. É reduzir o homem a um simples instrumento de uma suposta vontade divina.

¹ Emir Sader – Texto “No Dia Internacional da Mulher: pelo direito ao aborto, contra o obscurantismo” Carta Maior - 07/03/2009

² Rede Globo e Canal Futura lançam a série Sagrado nesta segunda-feira, 5

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