“A escola deve ser formadora de guerreiros...A educação deve reforçar nossa identidade e ensinar a lutar pelos nossos direitos...A escola deve estar a serviço da comunidade...a escola indígena deve ter autonomia, ser diferenciada, com ensino de qualidade”
Avaliando o momento atual da educação escolar Kaiowá Guarani, percebeu-se que ainda existe uma distância muito grande entre a escola que queremos e a escola que temos nas comunidades.
Fazendo uma análise do processo de construção da educação escolar indígena, percebeu-se um caminho promissor já percorrido.Porém continuam muitos e grandes desafios. Apesar dos direitos conquistados na lei, e alguns avanços nas políticas educacionais nas terras indígenas, ainda existe um ranço colonial nas escolas, nas secretarias de educação da maioria dos municípios e do Estado.
Os marcos legais são muitos e garantem a educação específica, diferenciada e de qualidade, porém na prática ainda falta muito para que a educação escolar que seja para a vida, reforce a cultura e identidade Guarani, dentro da dinâmica social de construção de um presente e futuro cada vez melhor para os mais de quarenta mil Kaiowá Guarani. O movimento dos professores conseguiu conquistas, mas está com dificuldade para mantê-las e avançar para novos patamares. “Autonomia é conquista e ação”.
Constatou-se uma paralisação e até retrocesso em vários aspectos da educação escolar nas aldeias. Isso tem a ver com a luta pela terra, e a postura antiindigena do atual governo e das elites econômicas e políticas regionais.Não permitem que “se fale e discuta a luta pela terra nas escolas!”. Isso é um absurdo afirmaram as lideranças, pois esse deve ser exatamente um dos temas importantes a serem discutidos na escola, pois dele dependem o futuro do povo Guarani.
Apesar da boa vontade e consciência dos professores indígenas o diálogo entre eles e as lideranças tradicionais nem sempre tem sido fácil e continuado.
Uma política e pratica lingüística, com reforço da língua Guarani é um importante instrumento de luta e afirmação da identidade . Porém nem sempre os professores tem conseguido implementar as políticas definidas pelo próprio movimento.
Outra dificuldade constatada é a representação indígena nos espaços de debate e decisão das instituições acadêmicas, educacionais e organismos governamentais. Isso atropela e desrespeita os processos coletivos, próprios das comunidades indígenas.
Dialogando com o passado construindo o futuro
No trabalho em grupos, debates e exposições uma questão sobressaiu – hoje a educação escolar indígena tem uma importância fundamental na consolidação de caminhos para o presente e futuro das comunidades Kaiowá Guarani. Conseqüentemente a responsabilidade dos mais de 300 professores indígenas é cada vez maior, não apenas na transmissão de conhecimentos, mas principalmente no diálogo, aprendizado e transmissão da sabedoria milenar Guarani. Isso acontece principalmente na convivência da família, nos rituais, na vivencia espiritual nas oga pysy (casas de reza), nos roçados (onde ainda é possível, pois a grande maioria vive nos confinamentos ou na beirar da estrada), na convivência com os sábios(os mais velhos, os ñanderu e ñandesi), enfim, na hoje difícil vivência nas aldeias, marcadas por muita violência.
Uma das sugestões para reforçar o diálogo e a luta pelos direitos é a construção de oga pysy junto das escolas. Esse seria o espaço em que os alunos teriam a transmissão de sabedoria e rituais pelos ñanderu. Seria uma atividade integrada dentro do currículo e projeto pedagógico das escolas. Porém tudo isso certamente exigirá muito diálogo e compromisso das comunidades, hoje muito marcadas por interferências religiosas e políticas partidárias que se opõem a essa caminhada, dividindo as comunidades.
A partir da década de oitenta, iniciou-se, através do Cimi regional, um trabalho com os professores indígenas. Esse trabalho foi ampliado através da construção de diversos mecanismos e espaços, articulando-se com instituições em diversos níveis, desde o local, até o federal. Duas iniciativas importantes nessa caminhada são o Magistério Indígena Ará Verá, que iniciou em 1999 e o curso de licenciatura indígena Teko Arandu, implantado na Universidade Federal da Grande Dourados, em 2006.
Essa é uma conquista importante dentro do universo de mais de 500 estudantes universitários indígenas no Mato Grosso do Sul. Sobre a formação, compromisso e responsabilidade desses estudantes também se fez vários questionamentos. É uma realidade que tem que ser integrado na conjuntura maior da luta do povo por seus direitos, identidade Guarani e autonomia dentro de seus territórios.
Educação, escola e luta pela terra devem ser um conjunto de ações e estratégias que se articulam e fortalecem mutuamente.
Uma questão presente deste o inicio do processo de formação dos professores, foi sempre fazê-lo com a participação das lideranças políticas e tradicionais, pois só assim se conseguirá definir uma estratégias de educação a partir, com e para a comunidade. O que está se realizando aqui na aldeia de Cerrito é uma grande Assembléia, Aty Guasu, dos professores e lideranças Kaiowá Guarani.
Egon Heck
Movimento Povo Guarani Grande Povo,
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