martes, 19 de abril de 2011

Sejamos menos selvagens e mais índios

Há 519 anos, os legítimos donos dessas terras, que os forasteiros ousaram chamar de América, são explorados e dizimados pelos homens brancos e “civilizados”. Os povos originários que aqui viviam – e tentam viver – perderam não somente milhares de vidas, mas também a soberania e o direito a viver na terra que sempre foi deles.Terra não no sentido mercantil da palavra – pedaço de chão que pode ser vendido e comprado. Mas Terra enquanto Mãe. Provedora de vida, Pachamama.
Desde então, o que lhes resta, quando muito, é um consolo que pode também ser chamado de reserva indígena. Enquanto isso, a casa, a terra, a Pachamama é violentada e estuprada pelos “não-selvagens”, os homens “civilizados”. Civilizados esses que exploram a própria mãe. O que antes era sagrado passou a ser vendável. O que era de todos, passou a ter dono. E poucos. O homem civilizado agora é dono da terra e, não, parte dela como os povos originários que a habitavam. O culto à natureza passou a ser proibido e em seu lugar surgia o culto ao deus mercado.
Bendito seja o “desenvolvimento” que transformou a Terra em objeto do homem, em propriedade privada. O cordão umbilical foi rompido. Natureza e homem tornaram-se elementos separados. A Terra que para os índios era um ser vivo, cíclico e interdependente tornou-se mercadoria.
Ao contrário dos indígenas, o homem “desenvolvido” passou a produzir mais do que é capaz de consumir e mais do que a terra pode dar. Perdeu-se o controle do processo. O necessário já não é mais o suficiente. Empobreceu-se o solo, a soberania alimentar ficou ameaçada. À terra restou a tarefa de produzir, produzir e produzir a todo custo – e quanto mais baixo ele for, melhor.
Contudo, algumas iniciativas foram tomadas visando à defesa da Terra. Como exemplo, o Estado Plurinacional da Bolívia que aprovou a lei em defesa da Mãe Terra. Mãe porque é a nossa genitora a qual nós não vendemos, não envenenamos e não exploramos. Da nossa mãe a gente cuida. E assim fazem os índios. As áreas mais preservadas, não por acaso, pertencem a territórios indígenas. Todavia, embora tenham tanta sabedoria em relação à natureza, os povos originários ainda são vistos como selvagens e atrasados. Os são porque hoje em dia só é civilizado e desenvolvido aquele indivíduo que consome: Consumo, logo existo.
Mas o dito homem “civilizado” é inteligente. Transborda nas aldeias indígenas inúmeros produtos industrializados, além de transformar os índios em mão de obra barata, baratíssima ou escrava. É o desenvolvimento e o progresso chegando às comunidades indígenas.
Mas esse não é, ao contrário do que apregoa-se, o único modelo de vida, de produção e de consumo. É preciso que sejamos mais índios. Que aprendamos com eles como viver em plenitude; em harmonia com a natureza. Retornar à Mãe Terra é retomar os vínculos com a natureza. Não apenas explorá-la em nosso favor. É preciso romper com a “globo-colonização” que nos impôs um único modelo de sociedade. É preciso voltar ao útero de nossa mãe.





1 comentario:

  1. Muito belo o texto!! Como diria Frei Betto,temos de deixar de ser mais animais para sermos mais humanos.


    Att

    Regis Munhoz

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