sábado, 9 de julio de 2011

Fome: alimentos como negócio, por Leonardo Boff

“Seca na África leva milhares a campos de refugiados”. Essa notícia da BBC Brasil de hoje, mostra a barbárie a que estão submetidos mais de 900 milhões de seres humanos no mundo: a fome. Mas ao contrário do que muitos possam imaginar, a causa da fome não é causada por falta de alimentos, senão por falta de justiça. O mundo produz hoje cerca de 12 bilhões de toneladas de alimentos, o que daria para alimentar, mais que satisfatoriamente, os mais de 7 bilhões de habitantes do planeta. Mas há algo de errado nessa equação, como bem mostra o teólogo Leonardo Boff no texto abaixo.

O mundo está se alarmando com a alta do preço dos alimentos e com as previsões do aumento da fome no mundo. A fome representa um problema ético, denunciado por Gandhi: "A fome é um insulto, ela avilta, desumaniza e destrói o corpo e o espírito; é a forma mais assassina que existe." Mas ela é também resultado de uma política econômica. O alimento se transformou em ocasião de lucro, e o processo agroalimentar, num negócio rentoso. Mudou-se a visão básica que predominava até o advento da industrialização moderna, visão de que a Terra era vista como a grande mãe. Entre a Terra e o ser humano vigoravam relações de respeito e de mútua colaboração. O processo de produção industrialista considera a Terra apenas como baú de recursos a serem explorados até a exaustão.

A agricultura, mais que uma arte e uma técnica de produção de meios de vida, transformou-se numa empresa para lucrar. Mediante a mecanização e a alta tecnologia, pode-se produzir muito com menos terra. A "revolução verde", introduzida a partir dos anos 70 do século 20 e difundida em todo o mundo, quimicalizou quase toda a produção. Os efeitos são perceptíveis agora: empobrecimento dos solos, devastadora erosão, desflorestamento e perda de milhares de variedades naturais de sementes que são reservas face a crises futuras. A criação de animais modificou-se profundamente devido aos estimulantes de crescimento, práticas intensivas, vacinas, antibióticos, inseminação artificial e clonagem.
Os agricultores clássicos foram substituídos pelos empresários do campo. Todo esse quadro foi agravado pela acelerada urbanização do mundo e o conseqüente esvaziamento dos campos. A cidade coloca uma demanda por alimentos que ela não produz e que depende do campo.

Vigora uma verdadeira guerra comercial por alimentos. Os países ricos subsidiam safras inteiras ou a produção de carnes para colocá-las a melhor preço no mercado mundial, prejudicando os países pobres, cuja principal riqueza consiste na produção e exportação de produtos agrícolas e carnes. Muitas vezes, para se viabilizarem economicamente, obrigam-se a exportar grãos e cereais que vão alimentar o gado dos países industrializados, quando poderiam, no mercado interno, servir de alimento para suas populações.

No afã de garantir lucros, há uma tendência mundial, no quadro do modo de produção capitalista, de privatizar tudo, especialmente as sementes. Menos de uma dezena de empresas transnacionais controla o mercado de sementes em todo o mundo. Introduziram as sementes transgênicas que não se reproduzem nas safras e que precisam ser, cada vez, compradas com altos lucros para as empresas. A compra das sementes constitui parte de um pacote maior que inclui a tecnologia, os pesticidas, o maquinário e o financiamento bancário, atrelando os produtores aos interesses agroalimentares das empresas transnacionais.

No fundo, o que interessa mesmo é garantir ganhos para os negócios e menos alimentar pessoas. Se não houver uma inversão na ordem das coisas - isto é: uma economia submetida à política, uma política orientada pela ética e uma ética inspirada por uma sensibilidade humanitária mínima - , não haverá solução para a fome e a subnutrição mundial. Continuaremos na barbárie que estigmatiza o atual processo de globalização. Gritos caninos de milhões de famintos sobem continuamente aos céus sem que respostas eficazes lhes venham de algum lugar e façam calar este clamor. É a hora da compaixão humanitária traduzida em políticas globais de combate sistemático à fome.

Leonardo Boff é teólogo, professor e membro da Comissão da Carta da Terra

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