Pus um anúncio no jornal. Tá lá pode conferir... Quatro por quatro centímetros no final do canto esquerdo da última página de classificados de um importante jornal. Final de mês, sabe como que é, só deu pra isso. Mas nesses pequeníssimos centímetros está escrito muita coisa:
Fiz questão de colocar desse jeito, negrito com letras bem grandes que é pra todo mundo ver. No final, coloquei meu número de telefone, celular, claro, vai que me ligam e eu não estou em casa, meu deus, eu ia perder essa oportunidade.
Primeiro dia nada, segundo dia nada... Liguei pra operadora, meu celular só pode estar com problema! Quinto dia o telefone toca... A mão trêmula suava, mal consegui atender. Alô. Era uma voz masculina, porém fraca que denunciava a idade avançada de quem estava do outro lado da linha. Após longos minutos de conversa, descobri que se tratava de um jornalista aposentado. O tal senhor insistiu que eu escolhesse outra coisa. Menina, desiste disso. Jornalismo não dá dinheiro! Você já pensou em ser bancária?
Dinheiro, êta coisinha chata. Por que eu não posso querer ser jornalista pelo simples fato de que é isso que eu quero? Educadamente, respondi ao caro colega que eu não ia desistir. Prevendo que um longo tempo sem ligações estaria por vir, comecei a pensar sobre o que fez esse jornalista ter uma amarga lembrança da profissão. Tudo bem que o nosso jornalismo já não é mais o mesmo, as coisas mudaram. Será que seus ideais foram frustrados? Será que ele não tinha mais um motivo para lutar?
Antes de desligar o telefone, recordo-me da última frase dita, já em tom apocalíptico. Tudo bem, se é isso que você quer. Mas não venha reclamar depois quando decidirem que jornalista não precisa nem de diploma! Não sei como isso pode acontecer. Até me recordo de um texto que li dizendo que um computador faz melhor e mais rápido o trabalho de um jornalista. Porém, não me esqueço também do comentário a esse texto dizendo que essa notícia devia ter sido escrita por um computador. Parece que estão tentando apagar a luz daquilo que nela se originou.
Ser jornalista é ser HUMANO... É ter curiosidade, é querer sair escrevendo o que viu, o que sentiu... É ter ilusões perdidas e achadas.
Antes de finalmente desligar o telefone, disse ao estimável senhor: moço, eu só quero ser jornalista!
Publicado originalmente em 27/09/2008
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