Era algum dia no mês de março. Há um mês havia tomado a decisão de mudar-me de cidade, não foi um processo fácil. Deixar a família para ir em direção aos sonhos. Mas eu precisava. Sentia que dentro de mim falatava algo, era como se eu tivesse sido castrada de meus sonhos e eu teria que buscá-los onde quer que estivessem. A frase que me foi dita no momento que tive que sair da faculdade para começar a trabalhar nesse banco ainda ecoava na minha cabeça. Não me lembro quem era o autor, mas me lembro exatamente do que eu senti. Uma mistura de impotencia e desilusão. Ou eu começava a trabalhar, ou o sonho de ser jornalista não seria possível.
Há um tempo por volta da década de 90, trabalhar em banco era algo bom, me diziam. Bons salários, estabilidade, planos de carreira. Mas os tempos mudam… No meu primeiro dia de contratada, não fui trabalhar. Estava em observação no hospital com crise de gastrite. Não podia aceitar que teria que trabalhar para um banco. Me sentia como uma máquina. Não tinha que pensar, ser crítica, nada… apenas fazer movimentos repetitivos todos os dias. Eu era um caixa eletrônico ambulante e sabia.
Todoas as agências nas quais trabalhei eram lotadas, o que evidenciava a clara falta de trabalhadores. Mas para os banqueiros isso era eficiência: menos despesas, mais lucros. Me lembro de uma reunião que fui e o tema era essa bentida eficiência.. Queriam diminuir os gastos para aumentar os lucros. Na minha agência, a quantidade de pães do café da manhã era contada. Os vigilantes não podiam comê-los, afinal eram funcionários terceirizados. Para os banqueiros, talvez eles nem fossem seres humanos. Pensei no dia em que cortariam também o papel higiênico.
Não entendia essa conta: a cada ano, o lucro dos bancos era absurdamente alto e, mesmo assim, eramos obrigados a produzir cada vez mais. Onde, afinal, querem chegar os banqueiros? Nossas metas a cada mês aumentavam mais e mais. Não só tinhamos que vender, mas tinhamos que fazê-lo com sorriso no rosto e brilho nos olhos – de tanto chorar, penso.
Mas nesse dia qualquer de março, as coisas mudaram. Fomos convocados para uma reunião, na qual participariam mais ou menos dois mil funcionários. Tinhamos que ir de taxi depois do horário, fazer hora extra era uma coisa “normal”. Chegamos ao local do evento e parecia uma festa, de fato o era. Uma festa de hipocrisia. Fomos recepcionados ao som de “ I Gotta Felling”, do Black Eyed Peas. Música alta, os gerentes batendo palmas e dançando enquento nos conduziam ao salão principal. Não podia acreditar no que meus olhos viam. Estamos comemorando o quê, nossa escravidão?
Quando já estavamos todos sentados, a múscica voltou a tocar. No palco, um senhor dançava enquanto todos riam. Pareciam estar felizes. Parecia. A música foi ficando mais baixa e o senhor começou a falar. Fez mais algumas brincadeiras para que as pessoas se “descontraissem” antes de se apresentar. Era um dos diretores do banco. Todos se silenciaram após esse anúncio. Eu comecei a rir porque sabia o que estaria por vir. Queria ir embora, mas não podia.
Entre uns sorteios de bolas de plástico, bem parecidas às que são vendidas no camelo, e camisas de treino da seleção brasileira, o diretor nos mostrava o quando o banco lucrava com as nossas vendas. Era impressionate porque as cifras não eram baixas. Dávamos o nosso sangue suor e lágrimas –literalmente, e o que ganhávamos? Bolas de plástico. Eu me indiganava com cada palavra dita pelo diretor e aplaudida pelos funcionários. Será que eles estão cegos? Aplaudem a própria escravidão, aplaudem os diversos casos de assédio moral, às doenças laborais, às demissões em massa.
Me revirei na cadeira quando ouvi o diretor dizer que o banco tinha um sonho grande: o de ser o banco número um em atendimento no mundo. As pessoas aplaudiram forte. Eu ri. Aquilo tudo era demais pra mim. Tentei entender como a classe que mais adoece por motivos laborais podia estar aplaudindo tamanho absurdo. Segundo o diretor, o banco era reconhecido pela sua qualidade no atendimento. Claro, tinhamos metas para atender os clientes – o programa Todos pelo Cliente, o qual o diretor não se cansava de mencionar. Atendiamos com rapidez mesmo que isso nos custasse nossa hora de almoço. Almoçar pra quê, caixa eletrônico ambulante sequer deveria ter fome.
Já estava exausta. A reunião chegava ao fim. O momento agora era de fazer perguntas. Tinhamos que levantar o braço caso quiséssemos fazer alguma questão e prontamente nos davam o microfone, uma câmera gravava tudo. Passavamos por um momento que está em voga no Brasil, o de fusão entre bancos, praticamente um monopólio. Dessa forma, todas as perguntas giravam em torno desse assunto. Fiquei incomodada porque tinhamos em nossa frente o diretor do banco e as únicas perguntas era sobre dificuldades de adaptação – claro que eram importantes, mas poderiam ser feitas a outro gestor. Ao diretor do banco cabim perguntas mais questionadoras, e lá fui eu. Levantei o braço e junto com o microfone, chegava a câmera. Ela estava tão proxima que podia sentir sua luz queimando minha pele.
Chegou a minha vez. Levantei-me, disse meu nome e a agência na qual trabalhava. Estava no canto esquerdo do salão e para me ver, o diretor teve que se inclimar um pouco. Segurei o microfone bem firme e perguntei. O senhor passou a noite toda falando sobre o programa Todos pelo Cliente, queria saber do senhor quando o banco vai criar o Programa todos pelo funcionário. Um barulho ensurdecedor preencheu o salão. Os funcionários batiam palmas, gritavam, batiam os pés do chão. Sem sucesso, o diretor os pedia silêncio. Quando todos já estavam mais calmos, o diretor começava a responder, eu o interrompi dizendo que não havia terminado minha pergunta e continuei: O senhor também disse que o sonho desse banco é ser o banco número 1 em atendimento no mundo. Mas um banco não é feito só de cliente, mas, principalmente, de trabalhadores. Não tive como terminar, pois o barulho tomava conta do salão e, dessa vez, com muito mais força. Imaginei que eu fosse ser retirada a força por fortes seguranças tamanho era a desordem que se presenciou. Durante mais de cinco minutos e diretor pedia silêncio em vão. Quando o conseguiu, respondeu algo muito vago e encerrou a reunião.
Me senti livre. Não estava em comunhão com o que propunha o banco e pude dessa forma expressá-la. Vejo todos os dias companheiros de trabalho adoecerem, sofrerem assédio moral ou serem demitidos. E tudo isso por ganância de mais e mais lucro. Sim, o que me falaram quando eu abandonei a faculdade para trabalhar tinha sentido. De fato “inventaram um pedacinho de papel que vale mais que o ser humano”.
Depois disso tudo, era assim que eu imaginava a sala da presidência.
Mara, vi seu comentário na notícia sobre o assédio moral do Itaú e PRECISEI vir procurar seu texto.
ResponderBorrarLendo o seu texto, confesso que dei risada porque também vivi essa situação dentro do Itaú e peguei bem essa época de corte de gastos e sonho grande (só se for o sonho de sair de lá)
Graças a deus sai e lendo esse texto reativou um filme na minha cabeça e uma lista dos motivos que me fizeram sair (sem arrependimento)
Um fato engraçado: durante uma desses reuniões "motivacionais", um amigo da minha equipe - trabalhava no atendimento Uniclass por telefone - enviou a seguinte pergunta (no nosso caso era por papel anonimamente) para um dos Superintendentes:
"O Sr já ouviu a história do pato? Ele anda, voa e nada...mas não faz nada direito. É assim que nos sentimos no Uniclass: atendendo clientes, transbordo SAC e tendo que vender" hauahauaha